O Lugar – Do tamanho de um galpão, pouca luz. Mais próximo da porta de entrada, um bar e bem lá no fundo uma cozinha. A intenção segundo Chapinha, era transformar o ambiente num estacionamento que certamente renderia uns bons trocados para diretoria local, mas devido a um poste instalado bem na porta de entrada, acabou não sendo possível, já que a remoção do mesmo lhe custaria quase o valor do estabelecimento todo. Era no 257 da Rua Dr. Antônio Bento, Largo Treze de Maio, o ano, 2000. Apelar para o plano b, foi a única solução. Jô Cabeleireiro, um dos sócios do lugar junto com Chapinha, confiou ao mesmo a implantação desse bar que consequentemente abriu espaço para o samba. Basicamente revitalizando o extinto Bar do Chapinha lá no Jd São Luiz, que já era sucesso no bairro, tanto que, ao anunciar a inauguração não deu outra e todos estavam de volta relembrando os velhos tempos de sambas e versos mandados pelo Boca, Ary, Chocolate, Bicudo o próprio Chapinha e outros mais. Algumas vezes eu arriscava, mas ainda tinha muito que aprender. Então foi quase fielmente reproduzida, uma roda de samba ao estilo antigo, não fiel, devido a falta de alguns integrantes da época, embora a maioria estava lá firme e forte! Seu Nome, Ziriguidum, os dias, Sextas-feiras. O Bairro – O gigantismo de Santo Amaro se dá desde o tempo em que era município. Sua evolução econômica se deve a uma boa parte dos migrantes nordestinos que fizeram do centro do bairro, um imenso shopping center ambulante. Isso obrigou os lojistas a darem um talento em seus estabelecimentos, já que lhes foi roubada senão toda, uma boa parte de sua visibilidade. Mesmo assim a coisa continuou um tanto feia por muito tempo. Santo Amaro ficou anos submerso às margens da sociedade, enquanto centro. O que restou dos sub-bairros, foi a fama de um suposto Vietnã onde seus costumes eram revolver na mão, moleques surfando em trem, pichadores, traficantes, favelados etc… até meados dos anos noventa só tínhamos três únicos ônibus que nos levavam direto ao centro da cidade, o Julho Prestes-Caiçara e Largo São Francisco-Jacira e o Bandeira-Calú. O restante, era tudo terminal Santo Amaro. Uma lotação extraordinária, o trânsito, só por Deus e cada trabalhador que quisesse chegar no trabalho por volta de oito da manhã tinha que levantar as cinco. – Por favor, um troféu para esses heróis. Ainda hoje, com suas melhorias metrôs, shoppings Centers, faculdades, Caixas de bancos, hipermercados, encontra-se com olhares indiferentes, não diferindo de outros bairros que sofrem dos mesmos problemas, à anos. Basta ser periferia, para estar na roça junto. Na falta de movimentos culturais, acabava que as pessoas procuravam distração em pracinhas, campos de futebol, represas, quando nenhuma dessas, televisão mesmo. Se não dependessem de condução, algumas rodinhas de pagode em algum lava rápido ou bailinhos promovidos próximos de casa. As igrejas todas, sempre lotadas. Que fé heinnn!!! Num tempo mais antigo a periferia tinha seus atrativos particulares e criativos de invenção popular. Cada época do ano uma situação diferente. Nas férias as pipas subiam aos céus, bolinhas de gude rolavam no chão. Quem não brincou de figurinha, pics bandeira, mãe da rua, pega pega? Era toda uma alegria estampada no olhar da molecada. Nos aniversários eramestrume de cavalo, ovo, mato, uma vez me pegaram e eu fiquei uma semana e meia fedendo e no mês de julho, as quermesses. A melhor roupa e todos desciam pra curtir a festa, beber quentão dar uma de louco. Das válvulas de escape, as mais corriqueiras eram os tios no bar jogado bilhar ou bebendo uma cachacinha. As mães na igreja e a pivetada na rua. A trilha sonora era Bezerra da Silva manhã, tarde e noite. Tinha sempre um morador que colocava as caixas de som na janela lá no alto do morro e entuchava no volume, ouvia quem quisesse ou não. Até sei letras que nem sei como aprendi. São essas, as doces lembranças que marcaram uma época difícil, mas que nos ensinou muito. Nascia naquela noite de sexta-feira no ziriguidum bar, a coqueluche do samba de comunidades, de sambas inéditos, de compositores inéditos, a nave mãe, o Samba de Vela que acendeu não só a vela, mas também a cidade toda. Iluminando a mente de várias pessoas. Revitalizando a crença em si próprio, tapando a cratera que ficara por muito tempo aberta no mundo do samba e preenchendo a lacuna que atravessava décadas. Não era mais comum de se ver rodas de samba acontecer na cidade a não ser boca da noite que reunia bambas como Odair do Cavaco, Borba, Waldir da Fonseca, Aldo Bueno, Silvo Modesto, Wilson Sucena, Jorginho Cebion e mais tarde o Quinteto em branco e preto e alguns outros esporádicos. Não existia nenhum movimento semanal que hasteasse a bandeira do samba, isso fez da comunidade do Samba da Vela pioneira nesse aspecto difusor e inovador da sociedade brasileira se expandindo para todo estado nacional, divulgando o Brasil, a Cidade de São Paulo e o Bairro de Santo Amaro para todo o mundo e dando uma verdadeira aula de entretenimento e inclusão social. Paquera, o presidente já considerado na alta patente dos sambistas e gravado por diversos artistas, foi quem deu a brilhante ideia de colocarmos uma vela ao centro, enfim, uma roda de samba com final, que até então não existia, experiência que adquiriu no extinto Mutirão do Samba, antecessor ao Samba da Vela. Já Magnu Sousá abriu as atenções para uma linha mais de pensamentos, comportamentos e filosofias. Foi quando Paquera interferiu dizendo que havíamos de conhecer um lugar. Fomos ao encontro do Projeto Nosso Samba, em Osasco e demos de cara com o que Magnu havia pensado e sugerido, tanto que o reverenciamos até hoje. Também foi o que bateu na tecla de que o canto tinha que estar acima do instrumental, já que ninguém cantava nas rodas de samba. Se não cantasse não tocava! Chapinha sempre foi anfitrião por natureza, apresentava sempre algo ligado a músicos, amigos, famílias, a rapaziada, também de experiências vividas nos bares e nas quebradas. Por causa dele muitas vezes foram evitadas bagunças e sentimentos contrários de uma determinada turma e até tem pessoas ajudadas por ele, com sua maneira particular de expor as palavras, passeando pelo universo do samba e dando certo. A ideia de comida no final era com ele mesmo, e por incrível que pareça, estava lá no dia da fundação o grande Oliveira que ainda, nos serviu um caldinho com pinga ai danou-se! Aprovadíssimo! Estava frio, mas ninguém arredou o pé. Já eu, um mero ajudante, atuaria em todas as áreas, faria o que fosse preciso mas até hoje dizem que eu não sirvo pra nada, mas minha ideia de colocar os quadros dos sambistas em volta da mesa foi aceita. Minha evolução era mais no momento do samba, das execuções e liderança no ato de tocar os sambas, dali viram os mais velhos, para que eu servia e, modéstia à parte, meu charme atraia um público mais formoso. Enfim, tudo que nos foi ensinado na vida até hoje é, de forma oral, como faziam nossos ancestrais, repassado para todo e qualquer ser humano que pisar em nossa comunidade e melhor, com amor, já que nos foi entregue a missão de ir na frente, abrir todos os caminhos possíveis e voltar para alertar a todos dos caminhos tortuosos que estariam por vir. hoje estamos aqui depois de dez anos de luta e resistência de cabeça erguida, militantes, mostrando pra que viemos, provando que nosso samba ainda ecoa, que faz sim! Um bamba reviver e renascer. Porque somos da terra da garoa, da Comunidade da Vela e temos orgulho de ser brasileiros. Quem nos viu e quem nos vê! Parabéns Comunidade da Vela por seus Dez anos de existência.
São Paulo, 17 de Julho de 2010
Maurilio de Oliveira
Fundador da Comunidade Samba da Vela
